30.11.06

Nudez

Não cantarei amores que não tenho,
e, quando tive, nunca celebrei.
Não cantarei o riso que não rira
e que, se risse, ofertaria a pobres.
Minha matéria é o nada.

Jamais ousei cantar algo de vida:
se o canto sai da boca ensimesmada,
é porque a brisa o trouxe, e o leva a brisa,
nem sabe a planta o vento que a visita.

Ou sabe? Algo de nós acaso se transmite,
mas tão disperso, e vago, tão estranho,
que, se regressa a mim que o apascentava,
o ouro suposto é nele cobre e estanho,
estanho e cobre,
e o que não é maleável deixa de ser nobre,
nem era amor aquilo que se amava.

Nem era dor aquilo que doía:
ou dói, agora, quando já se foi?
Que dor se sabe dor, e não se extingue?
(Não cantarei o mar: que ele se vingue
de meu silêncio, nesta concha.)
Que sentimento vive, e já prospera
cavando em nós a terra necessária
para se sepultar à moda austera
de quem vive sua morte?

Não cantarei o morto: é o próprio canto.
E já não sei do espanto,
da úmida assombração que vem do norte
e vai do sul, e, quatro, aos quatro ventos,
ajusta em mim seu terno de lamentos.
Não canto, pois não sei, e toda sílaba
acaso reunida
a sua irmã, em serpes irritadas vejo as duas.

Amador de serpentes, minha vida
passarei, sobre a relva debruçado,
a ver a linha curva que se estende,
ou se contrai e atrai, além da pobre
área de luz de nossa geometria.
Estanho, estanho e cobre,
tais meus pecados, quanto mais fugi
do que enfim capturei, não mais visando
aos alvos imortais.

Ó descobrimento retardado
pela força de ver.
Ó encontro de mim, no meu silêncio,
configurado, repleto, numa casta
expressão de temor que se despede.
O golfo mais dourado me circunda
com apenas cerrar-se uma janela.

E já não brinco a luz. E dou notícia
estrita do que dorme,
sob placa de estanho, sonho informe,
um lembrar de raízes, ainda menos
um calar de serenos
desidratados, sublimes ossuários
sem ossos;
a morte sem os mortos;
a perfeita
anulação do tempo em tempos vários,
essa nudez, enfim, além dos corpos,
a modelar campinas no vazio
da alma, que é apenas alma, e se dissolve...

Carlos Drummond de Andrade

23.11.06

Desatino...
















E nele que perco as exatas medidas do desejo
Vou entregando o mínimo aos poucos, no louco devaneio vigiado.
E aos poucos perco a linha reta do caminho, sem conseguir entender.
Resgate e entrega, fugitivo louco, meliante... É pra ele que entrego a coisa enfurecida.
Apelo para a vida, sentido, desejo, vadio... Eu te quero, vigio e preciso agora!
Livre e solto nessa verdade que, interesseira, se apresenta sob meu colo absolto.
Deito e espero, estou agitada e dispersa no perigo que me representa encontrar-te.
Os meus olhos que profundamente te enxergam, são os mesmos que exigem ter-te.

Que louco... desatino!
Erlen

9.11.06

Holofotes cintilantes...


Meus olhos são holofotes abstratos e tímidos que observam a
Aproximação silenciosa dela que parece ostentar vaidades, escondendo verdades.
Raiz afixada no passado. Sou o anônimo orientado pela dispersão do pensamento.
Cativo do silencio permaneço. Entre tantos que parecem investir, eu sou único.
Investigo em cada passageiro andante, o detalhe ao qual se afeiçoa o seu espírito.
O simples de mim faz-me intocável, inativo... Estou passivo e mudo...

Dias que chegam, acontecem e se vão....
Inverno, primavera e, possivelmente, o verão traga o novo tempo em que o sentimento
Arderá sobre a pele, abalando as inabaláveis estruturas do meu coração
Silencioso de mim... sairei da solidão?

Soprarei o mais discreto desabafo
Olhando na direção daquela majestosa altivez que encanta
Agarrando-me às verdades que defino, precipitadamente,
Realizo tudo o quanto penso, no pequeno vão entre as paredes que nos separam
Estou aqui parado, fitando-a permaneço intacto e distante
Sou o mais simples, silencioso de mim, meus olhos são cintilantes. Observo...

...E é ela que vem, fazendo sentir-me assim, apenas mais um entre tantos...
Porém, o mais especial dentre eles!




Para alguém especial, mesmo que desconheça o quanto...
Erlen

Pote de ouro
















É mais um dia que se vai
Passa vento, passatempo,
arco-íris pós-chuva trás para o ar a fresca brisa
pote de ouro deve existir no fim
o que espera-se do teu beijo, as moedas
será que estais no fim do arco-íris pós-chuva,
és o sol, provedor do arco-íris...

Meninez



A meninez do teu sorriso é o traço adolescente em que te vejo
De brincar e fazer sorrir que é o teu desejo,
encanta, desperta, cativa a esperança...
Estais no sentimento resguardado,
aquele cujos os instintos não se estimula o encanto
Agradece-se por ter surgido...

6.11.06

Poetas são estrelas


Os poetas são estrelas...
Vivas, brilhantes, ascendentes...
Que vivem como pessoas comuns.
Se revelam ao mundo através de suas palavras:
A Poesia.São os sábios dos sentimentos.
Doutores nos segredos da alma.
Escultores da grandeza do espírito.
São os mágicos da vida:
Transformam a alegria, a dor e a tristeza em arte de rara beleza.
São pensadores que entendem a maior de todas as ciências: A do coração!
São loucos de amor, passivos no seu mundo interior.
Amantes criativos, Sonhadores perdidos.
São apaixonados evoluídos.
Astros viajantes do tempo.
Estrelas vivas que acendem o universo da Paixão.

Lisiê Silva

23.10.06


"O grande poeta [...] deve perceber vibrações para além do alcance dos homens comuns, e ser capaz de fazer com que os homens vejam e ouçam mais do que poderiam ver ou ouvir sem a sua ajuda [...] A tarefa do poeta, a de fazer as pessoas compreenderem o incompreensível, exige imensos recursos de linguagem; desenvolvendo a linguagem, enriquecendo o sentido das palavras e mostrando o quanto elas podem fazer, ele está tornando possível, para outros homens, uma extensão maior de emoção e de percepção, porque ele lhes dá a fala na qual mais coisas podem ser expressas."
- T. S. Eliot -

16.10.06

O livro do desassossego (Fragmento I)


"O coração, se pudesse pensar, pararia."
"Considero a vida uma estalagem onde tenho que me demorar até que chegue a diligência do abismo. Não sei onde me levará, porque não sei nada. Poderia considerar esta estalagem uma prisão, porque estou compelido a aguardar nela; poderia considerá-la um lugar de sociáveis, porque aqui me encontro com outros. Não sou, porém, nem impaciente nem comum. Deixo ao que são os que se fecham no quarto, deitados moles na cama onde esperam sem sono; deixo ao que fazem os que conversam nas salas, de onde as músicas e as vozes chegam cómodas até mim. Sento-me à porta e embebo meus olhos e ouvidos nas cores e nos sons da paisagem, e canto lento, para mim só, vagos cantos que componho enquanto espero.Para todos nós descerá a noite e chegará a diligência. Gozo a brisa que me dão e a alma que me deram para gozá-la, e não interrogo mais nem procuro. Se o que deixar escrito no livro dos viajantes puder, relido um dia por outros, entretê-los também na passagem, será bem. Se não o lerem, nem se entretiverem, será bem também."
Fernando Pessoa

Primeiro passo


"Dê apenas um passo de cada vez. E o primeiro passo é parar de pensar sobre o que os outros fazem e dizem. Olhe apenas para você. Permita que seu olho interior se abra e olhe para si profundamente. Você então perceberá que é puro, pacífico e verdadeiro. Haverá grande prazer nesta descoberta. Você ficará livre de pensar na violência e tristeza que os outros causam. Sua cabeça se tornará completamente leve e você agradecerá a Deus por mostrar-lhe o caminho."
Dadi Ja

11.10.06

Rios... e homens...


"Amo os grandes rios, pois são profundos como a alma.
Na superfície são muito vivazes e claros, mas nas profundezas
são tranqüilos e escuros como o sofrimento dos homens".

Guimarães Rosa