
Eu aprendi...
...que o AMOR, e não o TEMPO, é que cura todas as feridas;
Eu aprendi...
...que ninguém é perfeito até que vcse apaixone por essa pessoa;
Eu aprendi...
...que a vida é dura, mas eu sou mais ainda;
Eu aprendi...
...que as oportunidades nunca são perdidas;
alguém vai aproveitar as que você perdeu.
Eu aprendi...
...que devemos sempre ter palavras doces e gentis, pois amanhã talvez tenhamos que engoli-las;
Eu aprendi...
...que um sorriso é a maneira mais barata de melhorar sua aparência;
Eu aprendi...
...que não posso escolher como me sinto, mas posso escolher o que fazer a respeito;
Eu aprendi...
...que todos querem viver no topo da montanha, mas toda felicidade e crescimento ocorre quando vc está escalando-a;
Eu aprendi...
...que quanto menos tempo tenho, mais coisas consigo fazer!
Eu aprendi...
Que Deus sem mim é DEUS, e eu sem DEUS, sou NADA !!!
16.8.06
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Erlen Matta
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quarta-feira, agosto 16, 2006
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Mundo pequenino
Para ser feliz
É preciso ter
Este mundo azul
Da imensidão
É fazer das tristezas,
Estrelas a mais
E do canto uma canção
Há um mundo bem melhor
Todo feito pra você
É um mundo pequenino
Que a ternura fez ...
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Erlen Matta
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quarta-feira, agosto 16, 2006
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Professora sim, tia não: cartas a quem ousa ensinar.
Ensinar é exigir tanto de si quanto de quem aprende, por isso não pode ser feito de qualquer modo, requer responsabilidade social. E é por isso que é preciso manter uma programação com constante avaliação. Além disso, há os pacotes fechados, prontos, que, quando em contato com a realidade contextual de cada lugar, desaparecem ou formam deformando. Justamente aí se apresenta o autoritarismo como suporte às “Tias” para terminar o dia, a tarefa. A tarefa da professora é também alertar para a ordem social de poder, sem deixar de adocicar-amaciar , assim “é possível ser tia sem amar os sobrinhos, sem gostar sequer de ser tia, mas não é possível ser professora sem amar os alunos – mesmo que amar, só, não baste – e sem gostar do que se faz”.
PRIMEIRA CARTA (ensinar – aprender – leitura do mundo – leitura da palavra): Quem ensina deve aprender com humildade e, assim, passar o conteúdo da vida para o educando/aprendente. Da mesma forma é o ensinar a ler, que é engajar-se numa experiência criativa em torno da compreensão, que demanda leitura, estudo, trabalho paciente, desafiador, persistente.
SEGUNDA CARTA (não deixe que o medo do difícil paralise você): Medo é dificuldade ante a algo que imaginamos desconhecido, sendo assim, temos que observar: se a capacidade de resposta está altura do desafio; ou se a capacidade está aquém; e também se está além. A aprendizagem passa pela leitura com fixação e atenção para tirar o medo, pois é preciso experimentar-se cada vez mais criticamente na tarefa de ler e de escrever para produzir conhecimento.
TERCEIRA CARTA (“Vim fazer o curso do magistério porque não tive outra possibilidade”): Só ia ser professor quem não dava para mais nada (p. 52), com essa frase Freire resume a tese desta carta, pois quem não tem opção de vida para trabalhar, faz com desgosto, e, como diz Rubem Alves, tem que haver prazer no labor para que a produção alcance ser estado ideal para todos.
QUARTA CARTA (Das qualidades indispensáveis ao melhor desempenho de professores e professoras progressistas): As qualidades principais que se busca nos professores são humildade, coragem, confiança em nós mesmos, respeito a nós mesmos e aos outros, e também a tolerância, que requer respeito, disciplina, ética. O conflito também é saudável , diz o autor.
QUINTA CARTA (primeiro dia de aula): É preciso ser espontâneo, sem ter medo da criatividade e interação dos alunos. O educador não pode temer os sentimentos, as emoções, os desejos, e lidar com eles como mesmo respeito com que nos damos a uma prática cognitiva integrada com os educandos. É preciso voar de forma disciplinada. É preciso estimular a imaginação dos educandos.
SEXTA CARTA (das relações entre a educadora e os educandos): Considero o testemunho como um discurso coerente e permanente da educadora progressista. Tem-se que lutar para acrescentar sempre positivamente à relação entre as partes aprendentes, de forma democrática e amorosa, restaurando e implantando a alegria de viver e o direito de sonhar.
SÉTIMA CARTA (de falar ao educando a falar a ele com ele; de ouvir o educando a ser ouvido por ele):
O respeito e a posição política fará com que a conversa com o educando se estabeleça em níveis agradáveis e criativos para ambos. Estimulando as relações futuras daquele com o mundo.
OITAVA CARTA (identidade cultural e educação): Falar de contexto parece repetitivo, contudo é ponto crucial para que a educação se desenvolva com qualidade e responsabilidade.
NONA CARTA (contexto concreto – contexto teórico): É do contexto concreto que tiramos nossas teorias para o contexto teórico, assim, temos a possibilidade de aprimorar os conhecimentos das relações que fazemos entre o mundo real e o imaginado na teoria, fazendo assim com que a criatividade seja saudável e produtora, além de ser coerente. Ou ainda, é preciso saber ler o mundo. E ensinar a ler o mundo é um desafio enorme, pois estamos acostumados a ser exploradores irresponsáveis. A educação visa responsabilidade baseada nas relações de contextos.
DÉCIMA CARTA (mais uma vez, a questão da disciplina): Saber dizer não sempre foi questão difícil, e não é no imobilismo que vamos ensinar a liberdade, mas é com a responsabilidade pensada, crítica, que vamos construir em conjunto a educação libertadora de vida.
ULTIMAS PALAVRAS (saber e crescer – tudo a ver): Saber é crescer construindo um mundo melhor para nós e para os outros. É respeitar a natureza com inteligência e coerência. Também é utilizar a educação alcançada para libertar os oprimidos das garras dos poderosos opressores.
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Erlen Matta
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quarta-feira, agosto 16, 2006
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15.8.06
Resposta para um amor do passado...
Sei que esse papo parece um saco! Mas, essa coisa de Transtorno Afetivo Bipolar, existe mesmo! E não é fácil, um dia, vc chegar na frente de um psiquiatra e começar a dizer tudo o que faz, sente e pensa... Receber algumas receitas, um atestado médico para descansar em casa, por estar num estado chamado hipomaníaco (que nada mais é que depressão com alta energia), era o que eu tinha e sempre acreditei ser apenas um traço meu de personalidade. Mas, eu lutei, foram meses de crise, terapias, insônias, desentendimentos, aceitações... Nessas horas, sabe? As pessoas desaparecem, elas não querem te ouvir, pensam que vc é um 'bicho de outro mundo', ninguém para e diz: Deixa eu te ouvir! Todo mundo diz, sim: Olha, agora eu não estou podendo falar... E daí a gente corre para o canto da gente e fica quieto. Faz um ano que conheci essa angustia e 4 meses apenas que me tornei estável.
Deus! Esse sim é o nosso fiel amigo e a cura mesmo, hoje sei, que só ele pode me dar. Tenho vivido dias de alegria, não estou com ninguém, mas sinto-me no direito de ter alguém pra 'chamar de meu', pq não? Eu mereço, quero, posso e vou sim, esperar o dia em que terei uma pessoa que me faça companhia hoje e amanhã eu possa pelo menos ligar para dizer um oi. Eu não quero mais sofrer e se tenho certeza de uma coisa, é que não quero mais sofrer. E com isso, não estou dizendo que vc ou alguém me inspira sofrimento. Poxa vida, se vc fosse uma pessoa livre, eu me entregaria a viver essa história, mas vc não é e eu não quero, mais uma vez, estar fazendo parte da sua história, que não seja como uma grande amiga que sente sim muito 'tesão', que curtiu muita aventura, fez loucuras e que não esquece isso tudo, mas que hoje prefere deixar tudo isso lá guardadinho no passado. Não é por medo e sim por segurança de não me ferir, mas acima de tudo, de não te ferir também, pq a gente fala do não envolvimento emocional... mas, é balela! Envolvimento tem sim, ninguém vai pra cama com alguém sem envolvimento. E o que eu já te disse e repito, as pessoas não se esbarram nesse mundo material por acaso, seguindo a lei de que o espírito precede a matéria, tudo isso já estava previsto... Não nos encontramos aqui simplesmente pq nossas peles se identificaram, não, tem muito mais no mundo espiritual que vc desconhece. E eu, pelos estudos que tenho feito, tenho a orientação de fazer o bem ao próximo e não o contrário. Do pouco que vc me conhece do passado mesmo, saberá que sou assim, apenas estou fortalecendo meus alicerces.
Eu mudei... sinto muito se não sou mais a mesma. Mas, devo dizer que estou muito mais feliz que antes. Que a voz que sai pela minha boca é mais tranquila, que sou uma pessoa mais consciente das verdades e ensinamentos de Deus. Não deixei de gostar das coisas de antes, imagina!!! Isso, faz parte da minha personalidade, apenas tenho agora, entendimentos morais sobre TER e SER, e se espero que Deus me torne uma mulher visível aos olhos de algum homem, preciso ser no minimo respeitável.
Não é uma dispensa, nem um fora, deixar de lado ou coisa do tipo... Mas, uma escolha que preciso fazer, para me dar a chance de perseverar, caso contrário estarei sempre habituada a um dia sim, outro não e quando quiser vai rolar, até o dia que acabarei sozinha. Acho que vc fez a sua e te garanto que foi a MELHOR ESCOLHA que poderia ter feito, pois a sua família é grandiosa, o resto é só figuração.
Enquanto amigos, vc é alguém com quem nunca perderei os laços de ternura e de afeto. Não fique triste comigo, a gente só se encontrou um tempo depois, foi só isso... Mas, já vivemos a nossa história inesquecível, pelo menos pra mim ela será eternamente lembrada, tenha certeza... rsrsrsrsrs
A sua amizade me faz muito feliz.
Um beijo grande no seu coração!
Erlen
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Erlen Matta
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terça-feira, agosto 15, 2006
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14.8.06
O dia dos pais...
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Erlen Matta
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segunda-feira, agosto 14, 2006
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Precisa-se de Matéria Prima para construir um País
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Erlen Matta
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segunda-feira, agosto 14, 2006
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9.8.06
O Retrato Oval

Edgar Allan Poe
O castelo em que o meu criado se tinha empenhado em entrar pela força, de preferência a deixar-me passar a noite ao relento, gravemente ferido como estava, era um desses edifícios com um misto de soturnidade e de grandeza que durante tanto tempo se ergueram nos Apeninos, não menos na realidade do que na imaginação da senhora Radcliffe. Tudo dava a entender que tinha sido abandonado recentemente. Instalámo-nos num dos compartimentos mais pequenos e menos sumptuosamente mobilados, situado num remoto torreão do edifício. A decoração era rica, porém estragada e vetusta.
Das paredes pendiam colgaduras e diversos e multiformes trofeus heráldicos, misturados com um desusado número de pinturas modernas, muito alegres, em molduras de ricos arabescos dourados. Por esses quadros que pendiam das paredes - não só nas suas superfícies principais como nos muitos recessos que a arquitectura bizarra tornara necessários - , por esses quadros, digo, senti desppertar grande interesse, possivelmente por virtude do meu delírio incipiente; de modo que ordenei a Pedro que fechasse os maciços postigos do quarto, pois que já era noite; que acendesse os bicos de um alto candelabro que estava à cabeceira da minha cama e que corresse de par em par as cortinas franjadas de veludo preto que envolviam o leito. Quis que se fizesse tudo isto de modo a que me fosse possível, se não adormecesse, ter a alternativa de contemplar esses quadros e ler um pequeno volume que acháramos sobre a almofada e que os descrevia e criticava.
Por muito, muito tempo estive a ler, e solene e devotamente os contemplei. Rápidas e magníficas, as horas voavam, e a meia-noite chegou. A posição do candelabro desagradava-me, e estendendo a mão com dificuldade para não perturbar o meu criado que dormia, coloquei-o de modo a que a luz incidisse mais em cheio sobre o livro.
Mas o movimento produziu um efeito completamente inesperado. A luz das numerosas velas (pois eram muitas) incidia agora num recanto do quarto que até então estivera mergulhado em profunda obscuridade por uma das colunas da cama. E assim foi que pude ver, vivamente iluminado, um retrato que passava despercebido. Era o retrato de uma jovem que começava a ser mulher. Olhei precipitadamente para a pintura e acto contínuo fechei os olhos. A principio, eu próprio ignorava por que o fizera. Mas enquanto as minhas pálpebras assim permaneceram fechadas, revi em espírito a razão por que as fechara. Foi um movimento impulsivo para ganhar tempo para pensar - para me certificar que a vista não me enganava -, para acalmar e dominar a minha fantasia e conseguir uma observação mais calma e objectiva. Em poucos momentos voltei a contemplar fixamente a pintura.
Que agora via certo, não podia nem queria duvidar, pois que a primeira incidência da luz das velas sobre a tela parecera dissipar a sonolenta letargia que se apoderara dos meus sentidos, colocando-me de novo na vida desperta.
O retrato, disse-o já, era de uma jovem. Apenas se representavam a cabeça e os ombros, pintados à maneira daquilo que tecnicamente se designa por vinheta - muito no estilo das cabeças favoritas de Sully. Os braços, o peito, e inclusivamente as pontas dos cabelos radiosos, diluíam-se imperceptivelmente na vaga mas profunda sombra que constituía o fundo. A moldura era oval, ricamente dourada e filigranada em arabescos. Como obra de arte, nada podia ser mais admirável que o retrato em si. Mas não pode ter sido nem a execução da obra nem a beleza imortal do rosto o que tão subitamente e com tal veemência me comoveu. Tão-pouco é possível que a minha fantasia, sacudida da sua meia sonolência, tenha tomado aquela cabeça pela de uma pessoa viva. Compreendi imediatamente que as particularidades do desenho, do vinhetado e da moldura devem ter dissipado por completo uma tal ideia - devem ter evitado inclusivamente qualquer distracção momentânea. Meditando profundamente nestes pontos, permaneci, talvez uma hora, meio deitado, meio reclinado, de olhar fito no retrato. Por fim, satisfeito por ter encontrado o verdadeiro segredo do seu efeito, deitei-me de costas na cama. Tinha encontrado o feitiço do quadro na sua expressão de absoluta semelhança com a vida, a qual, a princípio, me espantou e finalmente me subverteu e intimidou. Com profundo e reverente temor, voltei a colocar o candelabro na sua posição anterior. Posta assim fora da vista a causa da minha profunda agitação, esquadrinhei ansiosamente o livro que tratava daqueles quadros e das suas respectivas histórias. Procurando o número que designava o retrato oval, pude ler as vagas e singulares palavras que se seguem:
"Era uma donzela de raríssima beleza e tão adorável quanto alegre. E maldita foi a hora em que viu, amou e casou com o pintor. Ele, apaixonado, estudioso, austero, tendo já na Arte a sua esposa. Ela, uma donzela de raríssima beleza e tão adorável quanto alegre, toda luz e sorrisos, e vivaz como uma jovem corça; amando e acarinhando a todas as coisas; apenas odiando a Arte que era a sua rival; temendo apenas a paleta e os pincéis e outros enfadonhos instrumentos que a privavam da presença do seu amado. Era pois coisa terrível para aquela senhora ouvir o pintor falar do seu desejo de retratar a sua jovem esposa. Mas ela era humilde e obediente e posou docilmente durante muitas semanas na sombria e alta câmara da torre, onde a luz apenas do alto incidia sobre a pálida tela. E o pintor apegou-se à sua obra que progredia hora após hora, dia após dia. E era um homem apaixonado, veemente e caprichoso, que se perdia em divagações, de modo que não via que a luz que tão sinistramente se derramava naquela torre solitária emurchecia a saúde e o ânimo da sua esposa, que se consumia aos olhos de todos menos aos dele. E ela continuava a sorrir, sorria sempre, sem um queixume, porque via que o pintor (que gozava de grande nomeada) tirava do seu trabalho um fervoroso e ardente prazer e se empenhava dia e noite em pintá-la, a ela que tanto o amava e que dia a dia mais desalentada e mais fraca ia ficando.
E, verdade seja dita, aqueles que contemplaram o retrato falaram da sua semelhança com palavras ardentes, como de um poderosa maravilha, - prova não só do talentoo do pintor como do seu profundo amor por aquela que tão maravilhosamente pintara. Mas por fim, à medida que o trabalho se aproximava da sua conclusão, ninguém mais foi autorizado na torre, porque o pintor enlouquecera com o ardor do seu trabalho e raramente desviava os olhos da tela, mesmo para contemplar o rosto da esposa. E não via que as tintas que espalhava na tela eram tiradas das faces daquela que posava junto a ele. E quando haviam passado muitas semanas e pouco já restava por fazer, salvo uma pincelada na boca e um retoque nos olhos, o espírito da senhora vacilou como a chama de uma lanterna. Assente a pincelada e feito o retoque, por um momento o pintor ficou extasiado perante a obra que completara; mas de seguida, enquanto ainda a estava contemplando, começou a tremer e pôs-se muito pálido, e apavorado, gritando em voz alta 'Isto é na verdade a própria vida!', voltou-se de repente para contemplar a sua amada: - estava morta!"
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quarta-feira, agosto 09, 2006
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A última crônica
A caminho de casa, entro num botequim da Gávea para tomar um café junto ao balcão. Na realidade estou adiando o momento de escrever.A perspectiva me assusta. Gostaria de estar inspirado, de coroar com êxito mais um ano nesta busca do pitoresco ou do irrisório no cotidiano de cada um. Eu pretendia apenas recolher da vida diária algo de seu disperso conteúdo humano, fruto da convivência, que a faz mais digna de ser vivida. Visava ao circunstancial, ao episódico. Nesta perseguição do acidental, quer num flagrante de esquina, quer nas palavras de uma criança ou num acidente doméstico, torno-me simples espectador e perco a noção do essencial. Sem mais nada para contar, curvo a cabeça e tomo meu café, enquanto o verso do poeta se repete na lembrança: "assim eu quereria o meu último poema". Não sou poeta e estou sem assunto. Lanço então um último olhar fora de mim, onde vivem os assuntos que merecem uma crônica.Ao fundo do botequim um casal de pretos acaba de sentar-se, numa das últimas mesas de mármore ao longo da parede de espelhos. A compostura da humildade, na contenção de gestos e palavras, deixa-se acrescentar pela presença de uma negrinha de seus três anos, laço na cabeça, toda arrumadinha no vestido pobre, que se instalou também à mesa: mal ousa balançar as perninhas curtas ou correr os olhos grandes de curiosidade ao redor. Três seres esquivos que compõem em torno à mesa a instituição tradicional da família, célula da sociedade. Vejo, porém, que se preparam para algo mais que matar a fome.
Passo a observá-los. O pai, depois de contar o dinheiro que discretamente retirou do bolso, aborda o garçom, inclinando-se para trás na cadeira, e aponta no balcão um pedaço de bolo sob a redoma. A mãe limita-se a ficar olhando imóvel, vagamente ansiosa, como se aguardasse a aprovação do garçom. Este ouve, concentrado, o pedido do homem e depois se afasta para atendê-lo. A mulher suspira, olhando para os lados, a reassegurar-se da naturalidade de sua presença ali. A meu lado o garçom encaminha a ordem do freguês. O homem atrás do balcão apanha a porção do bolo com a mão, larga-o no pratinho -- um bolo simples, amarelo-escuro, apenas uma pequena fatia triangular.
A negrinha, contida na sua expectativa, olha a garrafa de Coca-Cola e o pratinho que o garçom deixou à sua frente. Por que não começa a comer? Vejo que os três, pai, mãe e filha, obedecem em torno à mesa um discreto ritual. A mãe remexe na bolsa de plástico preto e brilhante, retira qualquer coisa. O pai se mune de uma caixa de fósforos, e espera. A filha aguarda também, atenta como um animalzinho. Ninguém mais os observa além de mim.São três velinhas brancas, minúsculas, que a mãe espeta caprichosamente na fatia do bolo. E enquanto ela serve a Coca-Cola, o pai risca o fósforo e acende as velas. Como a um gesto ensaiado, a menininha repousa o queixo no mármore e sopra com força, apagando as chamas. Imediatamente põe-se a bater palmas, muito compenetrada, cantando num balbucio, a que os pais se juntam, discretos: "parabéns pra você, parabéns pra você..." Depois a mãe recolhe as velas, torna a guardá-las na bolsa. A negrinha agarra finalmente o bolo com as duas mãos sôfregas e põe-se a comê-lo. A mulher está olhando para ela com ternura — ajeita-lhe a fitinha no cabelo crespo, limpa o farelo de bolo que lhe cai ao colo. O pai corre os olhos pelo botequim, satisfeito, como a se convencer intimamente do sucesso da celebração. Dá comigo de súbito, a observá-lo, nossos olhos se encontram, ele se perturba, constrangido — vacila, ameaça abaixar a cabeça, mas acaba sustentando o olhar e enfim se abre num sorriso. Assim eu quereria minha última crônica: que fosse pura como esse sorriso.
Texto extraído do livro "A Companheira de Viagem", Editora do Autor - Rio de Janeiro, 1965, pág. 174.
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Erlen Matta
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quarta-feira, agosto 09, 2006
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6.8.06

"E não há melhor resposta que o espetáculo da vida:
vê-la desfiar seu fio,
que também se chama vida (...)
vê-la brotar como há pouco em nova vida explodida;
mesmo quando é assim pequena a explosão,
como a ocorrida;
mesmo quando é uma explosão como a de há pouco, franzina;
mesmo quando é a explosão de uma vida severina. "
trecho de 'Morte e vida Severina'
João Cabral de Melo Neto
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Erlen Matta
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domingo, agosto 06, 2006
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Deixo que a dinâmica da intertextualidade fale por mim...
minha mente nada me permite neste instante, quero apenas PAZ e da leitura extraio o que sinto e reproduzo da forma como penso que deve ser...
Não abuso das letras, sei que delas nada posso além de ler e absorver.
Nada sou além de palavras repetidas.
Uso os textos para me fazer compreender.
Sinto cansaço, indisponível para pensar, não quero estar nem quero ser.
Estou inerte... esperando mais um amanhecer
que por inspiração sei que não vai acontecer!
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Erlen Matta
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domingo, agosto 06, 2006
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