31.8.06

Por Toda Vida Agora


Vanessa Rangel

Um dia desses você vem
Vai chegar assim sem me notar
Sem presa
Sem querer ficar
Mas tudo pode acontecer
Uma febre, um fogo de acender
Sei lá
Se eu pudesse
Ter uma chance
Ter um romance
Por toda vida agora
Vem me dizer
Qual o seu rosto
Qual o seu gosto
Não vou ficar de fora
Cadê você
E o nosso amor existirá
Na vida, no que vier
Numa explosão atômica
Num raio, num grão qualquer
Tá tudo certo, tudo bem
Vem comigo, vem, me dê a mão
Me tira
Dessa solidão
O mundo gira tão veloz
Eu pergunto o que seremos nós
Um dia ...

29.8.06

Mal de Mim



Djavan

Eu pensei, que fosse coisa para um dia só

Ficar de mal de mim
Reagi, sou seu amigo e digo como vai
você fica séria
E nem sinal, brigou comigo e a solidão
Servirá de lugar pra nós dois
Se é por amor, que tal agir e não radicalizar
Sejamos mais lisos
Pega esse meu ombro
Rega, se adormecer eu sei que o sono passou a perna
Nessa distância férrea, que marcou
Meu amor dormir contigo é escutar Gal e Tom
O que rolar é bom
Passear, rever amigos todos e boas novas
Visitar a Grécia ...

Tudo é mais grave de madrugada?


Outro dia, não sei bem se foi na novela das 20h que na verdade começa às 21h, ouvi alguém dizer que: - Tudo é mais grave de madrugada! E referiam-se a uma febre ou indisposição da filha pequena ou algo assim.
Nos últimos dias tenho tido uma insônia triste e a minha experiência com as noites em claro já é antiga... bem antiga mesmo. Noite dessas, lembrei-me dessa frase: Tudo é mais grave de madrugada!
Nossos pensamentos voltam-se para o difícil, para a impossibilidade, o medo, o inalcansável e parecemos impotentes diante de nós mesmos. A busca pelo controle remoto da TV é imediato e o retorno pelo que não existe deagradável e alegre nos canais abertos, nos faz mais impacientes. São filmes antigos, testemunhos religiosos imagináveis, vendas, entrevistas com desconhecidos completos... enquanto pra mim, seria maravilhoso mesmo assistir a um belo desenho animado do tipo Shrek; A era do gelo ou Madagascar...
Uau! Que delícia seria! ou quem sabe um daqueles seriados, como Jeannie é um gênio ou a Feiticeira, que me fazem lembrar os meus velhos tempos de menina, tempos em que, eu também sofria de insônia mas, armava uma cabana com meus travesseiros e lençóis e acabava dormindo cansada... depois de esconder-me de mim mesma com minhas bonecas que falavam e somente eu ouvia.
Hoje, não tenho mais as bonecas, tenho os controles do vídeo, da TV, do DVD, do som, o celular e os torpedos para os amigos de insônia, os livros, 1, 2, 3, que ficam na cabeceira para serem escolhidos... tenho as lembranças, a lista da agenda para o dia seguinte, as metas que pretendo cumprir, os medos, as angustias. Não faço mais as cabanas e sinto-me envolta por uma imensa tenda de misteriosas perguntas que, possivelmente, eu encontre todas as respostas ao amanhecer.
Hoje, sinto-me ao menos mais forte com a presença de Deus, tenho a certeza de que não estou só e que Ele me embala, mesmo que o momento pareça intolerante.

25.8.06

As palavras são novas



As palavras são novas: nascem quando
No ar as projetamos em cristais
De macias ou duras ressonâncias
Somos iguais aos deuses, inventando
Na solidão do mundo estes sinais
Como pontes que arcam as distâncias.

José Saramago

24.8.06

Digitais




Isabela Taviani

Eu tava aqui tentando não pensar no seu sorriso
Mas me peguei sonhando com sua voz ao pé do ouvido
E te liguei
Me encontro tão ferida, mas te vejo ai também em carne viva
Será que não tem jeito?
Esse amor ainda nem nasceu direito pra morrer assim
Se você pudesse ter me ouvido um pouco mais
Se você tivesse tido calma pra esperar
Se você quisesse poderia reverter
Se você crescesse e então se desculpasse
Mas se você soubesse o quanto eu ainda te amo
É que eu não posso mais
Não vou voltar atrás
Raspe dos seus dedos minhas digitais
Não vou voltar atrás
Apague da cabeça o meu nome, telefone e endereço
Não vou, eu não vou voltar atrás
Arranque do teu peito o meu amor cheio de defeitos
Me mata essa vontade de querer tomar você num gole só
Me dói essa lembrança das suas mãos em minhas costas sob o sol da manhã
Você já me dizia: conheço bem as suas expressões
Você já me sorria ao final de todas as minhas canções
Então por que?

23.8.06

O meu desassossego



Fácil é pedir aquilo que não entregamos a ninguém
Fazer o que acreditamos ser o mais agradável
Seguir pelo caminho mais curto é sempre bom

Difícil é devolver o que guardamos como verdade
e que aos poucos transformamos em lei
Desfazer o sepulcro da semente cultivada
quando o jardim já floresceu

Voltar pelo atalho mais longo é sempre dor...

Indubitavelmente, nos olhamos num espelho
que não nos permite ver o avesso
estamos parados no meio do caminho
e não sabemos o seu (re)começo

Olhamos na direção contrária da linha do sol
nos desapropriamos de nossa história
o princípio agora é um desfecho
de braços sem abraços, de boca sem um beijo

Voltar já não nos cabe...
seria apenas um desassossego
Fácil é mesmo pensar em voltar atrás
e não (re)começar jamais!

22.8.06

Partir Andar


Partir andar, eis que chega
Essa velha hora tão sonhada
Nas noites de velas acesas
No clarear da madrugada
Só uma estrela anunciando o fim
Sobre o mar sobre a calçada
E nada mais te prende aqui
Dinheiros, grades ou palavras
Partir Andar, Eis que chega
Não há como deter a alvorada
Pra dizer, um bilhete sobre a mesa
Para se mandar, o pé na estrada
Tantas mentiras e no fim
Faltava sempre uma palavra
Faltava quase sempre um sim
Agora já não falta nada
Eu não quis, te fazer infeliz
Não quis....
Por tanto não querer, talvez quis...
Partir andar, eis que chega
Essa velha hora tão sonhada
Nas noites de velas acesas
No clarear da madrugada
Só uma estrela anunciando o fim
Sobre o mar sobre a calçada
E nada mais te prende aqui
Agora já não falta nada...
Não falta nada...

Zélia Duncan e Herbert Viana

20.8.06

Orquídeas



Apagaram-se as luzes da ribalta
e a lua alta, espia, mansa
tua mão que a cintura enlaça
e os pés que circundam
como quem inicia a dança

Lançaram-se no ar as flechas
que ferozmente atravessam o coração
e em meio ao tafetá e as borboletas
surgem sinais da paixão

Da arpa do pequeno anjo
soa a suave canção
e diz que vens de longe
para acomodar-se como refrão

As luzes que a escadaria enfrenta
no sopro, oh grandioso vento!
dançam as mais lindas orquídeas
carregam o surto de um momento
do amor que levam da vida...

Suave paixão... Doce vida!

Dulcinéia


Quem tu és não importa, nem conheces
O sonho em que nasceu a tua face:
Cristal vazio e mudo.
Do sangue de Quixote te alimentas,
Da alma que nele morre é que recebes
A força de seres tudo.

José Saramago

19.8.06

O pião


Franks Kafka
Um filósofo costumava circular onde brincavam crianças. E se via um menino que tinha um pião já ficava à espreita. Mal o pião começava a rodar, o filósofo o perseguia com a intenção de agarrá-lo. Não o preocupava que as crianças fizessem o maior barulho e tentassem impedi-lo de entrar na brincadeira; se ele pegava o pião enquanto este ainda girava, ficava feliz, mas só por um instante, depois atirava-o ao chão e ia embora. Na verdade, acreditava que o conhecimento de qualquer insignificância, por exemplo, o de um pião que girava, era suficiente ao conhecimento do geral. Por isso não se ocupava dos grandes problemas – era algo que lhe parecia antieconômico. Se a menor de todas as ninharias fosse realmente conhecida, então tudo estava conhecido; sendo assim só se ocupava do pião rodando. E sempre que se realizavam preparativos para fazer o pião girar, ele tinha esperança de que agora ia conseguir; e se o pião girava, a esperança se transformava em certeza enquanto corria até perder o fôlego atrás dele. Mas quando depois retinha na mão o estúpido pedaço de madeira, ele se sentia mal e a gritaria das crianças – que ele até então não havia escutado e agora de repente penetrava nos seus ouvidos – afugentava-o dali e ele cambaleava como um pião lançado com um golpe sem jeito da fieira.